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O período de submissões para a Lusitânia nº3 está aberto até dia 31 de Maio de 2014.




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Reviews #8

Quinta-feira, 24.01.13

Pedro Ferreira

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A capa está porreirinha, mas falta uma contextualização: se colocassem um galo de Barcelos, uma caravela, uma imagem estilizada do D. Afonso Henriques ou do Viriato nada disso seria necessário pois são temas recorrentes do nosso património iconográfico, mas abordando uma lenda rebuscada (o que até é uma boa ideia) sem uma contextualização da mesma é o mesmo que dizer que muitos leitores mais distraidos não chegam lá facilmente. O mundo virtual dos blogues não é desculpa para omissões de informação importante.
Poderiam até dedicar uma página à descrição dessa mesma lenda, que seria até mais interessante (e importante) que aquela inteiramente dedicada aos blogues dos autores, cuja informação contida poderia ser colocada no final de cada conto.

Quanto à edição tenho ainda a condenar a falta de referncia ao nome dos autores no inicio de cada texto, sim porque não é nada prático para o leitor ter que avançar páginas só para saber o nome do autor do texto, assim como o trabalho de revisão, pois dizer que foi mau é quase um elogio. Falta de tempo, de paciencia ou de experiencia??? Tudo bem, mas essas coisas devem ser anotadas!!

Convém dizer que ainda me faltam ler dois contos, o que fará da minha critica um tanto incompleta. Mas os que li, por amor de Deus não há por aí quem saiba escrever? Falta densidade, profundidade e caracterização em quase todos, para além de uma escrita muito primária com constante repetição de pronomes pessoais, advérbios e substantivos próprios. As histórias são quase sempre demasiado lineares e previsiveis e os cenários muito mal caracterizados (nem vale a pena dizer quais, porque estão todas mais ao menos ao mesmo baixo nível).
A história "Como Portugal foi Salvo pelos Pastéis de Nata" é sem dúvida a pior que li: para além de todos os defeitos que citei acima, quase me deu vontade de rir pela forma de como uma bruxa de 150 anos toma comportamentos mais próprios de uma pita de liceu a sentir as primeiras experiencias - fazendo-se tolinha face ao rapaz que sempre gostou dela (caramba, cento e quarenta e tal anos a levar tampas deve ser tempo mais que suficiente para desmotivar qualquer um), etc. Uma pessoa com 150 anos haverá de ter nascido na segunda metade do séc. XIX e com certeza terá um enorme rol de histórias para contar: movimentos artisticos e literários do Geração de 70, o Régicidio, a Primeira Républica, as duas guerras mundiais, a Revolução Russa, o Estado Novo, o Pós-25 de Abril, para não falar da enorme mudança de costumes e do crescimento exponencial da cidade de Lisboa que veio a açambarcar a margem sul do Tejo ao longo do séc.XX. Como será possível que a Maria Adelaide não tenha memórias de tudo isto. Será que autora nunca se apercebeu por exemplo que a sua avó faz uso de um vocabulário em parte diferente do nosso e que reage às situações de uma forma muito diferente de uma mulher dos nossos dias? Numa mulher 40 ou 50 anos mais velha essas diferenças seriam muito mais visiveis. Tentar compreender esta realidade também faz parte das competencias de um bom escritor.
No meio de tudo isto há ainda a destacar os diálogos pouco realistas e muito forçados e os personagens superfluos que são a Matilde e o Gonçalo: poderiam ser desenvolvidos e ocupar um lugar importante na história, mas ficam reduzidos a dois espectadores passivos. A linearidade do argumento é contudo o pior.

A história que mais gostei foi "A Guerra do Fogo", talvez porque se insira muito no género do "sword and sorcery" de que eu gosto muito. Contudo, mesmo assim não a considero boa, nem sequer a melhor, apenas a «menos má». A acção e o espaço foram muito mal caracterizados e a dinâmica de analepse funciona um bocado mal, parece quase que o personagem caminha no meio de um éter amorfo(ok fala-nos em pinheiros para tentar transmitir que estamos num bosque português, de facto só faltaria também referir eucaliptos para ser ainda mais descontextualizado, pois os pinheiros são típicos da Europa Central e só se banalizaram pelo território português a partir do séc. XIII - mais de mil anos depois do Viriato). O diálogo entre o pretor romano e o guarda em relação aos prisioneiros é quase anedótico, pois seria sem dúvida senso comum que a venda de escravos era bastante lucrativa neste periodo.

Outra história que também gostei substancialmente, não mais que a anterior devido às minhas preferencias, foi a do «Vinho Fino». De facto não mais de original tem que a transposição para o território português de conceitos velhos da FC, mas é engraçada. Encontrei algumas semelhanças com o filme "The Grapes of Death" de Jean Rollin, mas acredito que seja apenas coincidencia.

De facto, dei duas estrelas ao projecto, apenas porque gostei da ideia de base. A forma como surgiu deixa muito a desejar. Os autores têm falta de vocabulário e de conhecimentos sólidos da história e cultura portuguesa, preferindo reproduzir temáticas vulgarizadas com um aspecto luso do que criar algo novo e os editores mostraram grande inexpriencia a lidar com o assunto. Não quero desmotivar os autores do projecto, quero apenas contribuir para a melhoria da qualidade e sentir-me-ia contente por dar uma cotação mais elevada ao segundo volume da revista.

Bom Trabalho!

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por Pantapuff às 10:48


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